Relatos

Don Juan dos ares

8 de agosto de 2013 0 comentário

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Como já devem ter percebido aqui nessa coluna, sou fã de listas. Sim, essas listas no estilo Top 10. Os melhores destinos, os melhores restaurantes, melhores hotéis… E nem sempre o lado bonito e agradável é o fator determinante da seleção. Gosto de divagar também cavucando a memória para tentar lembrar os piores perrengues, os momentos mais tensos, os grandes micos que ficarão para a eternidade (e que qualquer tímido é obrigado a vivenciar viajando pelo mundo, certo?)…. O mais interessante, lastimável ou curioso (depende de como você encara isso e o valor que dá a essa correlação como indicativo do estado da humanidade hoje em dia) é que a maioria das pessoas com que converso profissional ou informalmente, tem interesse justamente nesse lado negro das viagens. Mais do que ouvir relatos de momentos reveladores da alma humana, episódios fantásticos e personagens iluminados que conheci em minhas viagens, nego quer mesmo é saber qual foi o pior buraco que já me enfiei ou a comida mais nojenta que já fui obrigado a provar. Revelador, não? Ou sinal dos tempos, vai saber.

 

Sendo assim, resolvi ceder à curiosidade dos sádicos e revelar o que foi talvez o momento mais deliciosamente vexaminoso de todas as viagens do esquadrão “Não Conta lá em Casa”. Um relato épico no melhor estilo das tragicomédias gregas. Obviamente que o personagem principal dessa epopeia às avessas não sou eu, mas meu grande amigo e companheiro de viagens Leondre Campos. Segue…

 

Houve  um breve momento, entre um namoro e outro, em que nosso intrépido galã, Leondre Campos, teve o gostinho de viajar solteiro. Um único e fugaz momento de liberdade para este nosso sedutor aprisionado, mas que renderia um episódio para a eternidade. Leondre sabia que as oportunidades para usufruir de sua recém-conquistada alforria seriam poucas e decidiu não se fazer de rogado. Por um desses costumeiros e confusos desencontros de agenda, mais uma vez só iríamos ter a equipe completa em nosso destino final. Pesca partia da Europa, UFO da Ásia, eu do Brasil e Leo seguia direto de uma breve parada para compra de equipamentos nos Estados Unidos. Seu voo partiria de Nova Iorque, com uma escala em Houston e de lá para território nada amistoso. Leondre sabia que este curto espaço de tempo seria sua última chance de contato com representantes do sexo oposto. Ainda no salão de embarque, nosso solteirão mapeava o ambiente analisando seus companheiros (e, principalmente, companheiras) de viagem. Como uma ave de rapina em modo de caça, ele procurava a presa ideal: jovem, de porte franzino e, de preferência, afastada de seu bando. Até que, finalmente, seus olhos fecharam na vítima perfeita.  Loira, esbelta, pele clara e olhos de um azul profundo. Uma ninfa! Uma autêntica fada sem asas. Ele fez a aproximação com cautela e em silêncio. Ao perceber que a distância era segura mandou o bote: “How you doing?”, no melhor estilo Joey Tribbiani, do seriado Friends. A determinação de Leondre, somada ao instinto de perpetuação da espécie, deu nova vida ao xaveco de nosso intrépido companheiro. Com poucos minutos de papo o jovem mancebo conseguiu cair nas graças da graciosa loirinha, e juntos deram um jeito de viajar lado a lado. O minúsculo espaço entre as poltronas 16F e 16E nunca pareceu tão providencial.

 

Os dois pombinhos acomodaram-se em seus assentos e aguardavam a hora da decolagem. A conversa já fluía naturalmente e sorrisinhos de ambas as partes davam pista de que o voo poderia ser mais agradável do que se fosse na classe executiva. Leondre cavalheirescamente cedeu a janela, sentou-se ao lado de sua dama e ambos ignoraram o senhor de meia-idade que completava a sequencia de três assentos da fileira 16. Antes que o avião ganhasse velocidade para alçar voo, ela pediu para dar a mão a Leondre. Nosso aspirante a Don Juan foi aos céus antes mesmo de afivelar o cinto de segurança. Enquanto agradecia a Deus por sua boa fortuna, sua companheira se apressou em explicar o porquê do impetuoso gesto: “-Eu sou da congregação de Salt Lake City, em Utah, e gostaria de dar a mão a você para louvarmos o Senhor antes dessa viagem.” O semblante de Leondre transformou-se em um misto de surpresa e preocupação. Ele começou a fazer cálculos e ponderações para adaptar seu plano de ataque quando foi interrompido pelo cavalheiro sentado na poltrona 16D, ao seu lado direito: “Me desculpe, mas não pude deixar de notar que vocês são religiosos. Eu sou da congregação ortodoxa de Houston. Posso me juntar a vocês neste momento de louvor?” Antes que pudesse balbuciar qualquer palavra, Leondre se viu de mãos dadas com Miss Utah do lado esquerdo e com o senhor careca e gordinho que suava à sua direita. Aquele voo tinha ido de uma potencial sessão de luxúria nas nuvens à uma encenação da Missa do Galo em questão de segundos. Quando achava que sua sorte não podia piorar, ele ouve de sua musa: “Leo, você faria a honra de puxar a oração?” Este projeto de pecador não entrava em uma igreja desde quando fora batizado, da Bíblia só havia visto as figuras e não saberia rezar uma oração nem que a vida de seu cãozinho de estimação dependesse disso. Mas Leondre ainda estava determinado a não fazer feio, acreditava que, com a graça do Senhor, ainda havia uma mínima chance com sua elfa do meio-oeste americano. Ele então pediu licença para recitar sua oração no português de sua terra natal e, em ritmo sagradamente pausado e circunspecto, emendou: “Uma vez Flamengo, sempre Flamengo. Flamengo sempre eu hei de ser…”

 

Para encurtar o relato de tão traumático episódio, basta dizer que Leondre não decepcionou com seus amigos carolas. Mas também não conseguiu nada com a noviça americana. E esta acabou sendo a história mais próxima de um episódio de esbórnia e paixão vivido por um membro do “Não conta lá em casa” no exercício de suas funções.

 

Essa e outras histórias menos trágicas e cômicas estão no livro “Não Conta lá em Casa- Uma viagem pelos destinos mais polêmicos do mundo”(Editora Record) já nas melhores livrarias.

 

 

André Fran é um dos criadores/apresentadores da série de TV “Não Conta lá em Casa” (Multishow), onde quatro amigos encaram os roteiros mais polêmicos do planeta e semanalmente escreve aqui no nosso blog!

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