Relatos

“PODE BATER UMA FOTINHO PRA MIM?”

15 de julho de 2014 4 Comentários

Foto Meirelles

Tem viajante que se incomoda com o ato de arrumar e desarrumar as malas. Outros com a logística.  Muitos com a língua. E eu juro pra você que isso tudo pra mim é algo trivial. O que me incomoda de verdade numa viagem é quando alguém pede para eu tirar uma foto.

Não, não sou daqueles artistas presunçosos e cansados do assédio, que, por sinal, nem tenho. Quando eu digo que não gosto de tirar fotos, me refiro literalmente ao ato de eu ser responsável por uma foto. O fotógrafo.  O que fala “vem mais pro lado, isso, junta”. Aquele que tem a missão de eternizar aquele momento especial para alguém. Muitas vezes um desconhecido que te para na frente de um ponto-turístico e fala:

“-Com licença, pode bater uma fotinho pra mim?”

Alguém já negou esse pedido? Alguém bem mala já falou:

“-Não, não sei mirar e apertar um botão. Passar bem.”

O problema é que não é apenas apertar um botão. É uma responsabilidade absurda.  Há 12 segundos atrás você era um turista distraído, agora é um diretor fotográfico sem um briefing. A foto não é sua, mas está nas suas mãos. Tudo depende de você, um anônimo que ele confiou.

Será que fica melhor horizontal? Será que fica melhor vertical? Mostro os pés? Coloco aquela árvore ali no plano? Faço algo mais conceitual? Coloco elementos nas fotos? Contrato pessoas para fazer figuração e deixar o ambiente mais “cool”?

Dependendo de sua dedicação essa foto pode ir direto pro Instagram da pessoa. Ainda ganhar o mérito da #semfilto, de tão perfeita que saiu. Vários likes, compartilhamentos…

Ou, pensando grande, entrar num porta-retrato, daqueles que ficam em cima de um piano sem uso. Já pensou? A sua foto sendo vista por várias gerações? Amigos, filhos, netos. Todos perguntando sobre aquele momento que você criou.

Mas também pode ser uma simples fotinho clichê de viagem ,  sem título, jogada ali num álbum DISPOSITIVO MOVÉIS do Facebook, no meio de tantas outras.

Ou pior: aquela foto que nem baixada foi. Aquela que a pessoa agradece a sua boa vontade, fala “ficou ótima”, aguarda 3 minutinhos e pede para outro fotografo ocasional bater.

Muitas decisões, muita pressão. E você só tem 10 segundos pra ser um gênio ou um vilão.  Acho que esse critério deveria ser melhor avaliado para não se perder boas oportunidades confiando em qualquer um.

Deveria ter uma espécie de teste.

“-Amigo, você pode bater uma foto pra mim?”

“ –Claro”

-“ Mas antes tira foto daquela árvore ali. Vai….CLICK……Humm, ficou boa. Agora tira foto desse cata-vento aqui?….CLICK….Excelente. Ultima perguntinha: o que um ser humano tem em cima do ombro?’

-“cabeça”

-“Perfeito, significa que você não vai cortar a minha. Tá prontíssimo. Pode bater a minha foto com a Torre Eiffel ao fundo.?“

Mas enquanto isso não ocorre, continuo com a minha resposta padrão:

“-Com licença, pode bater uma fotinho pra mim?”

“Não, não sei mirar e apertar um botão. Passar bem. “

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4 Comentários

Carolina Cauper 16 de julho de 2014 at 10:20

Quando eu crescer, quero escrever que nem você !

Responder
Marcio Barcelos 16 de julho de 2014 at 14:51

Caraca! Ninguém nunca me negou tirar uma foto, muito louco isso! Vc é d+ Véio!

Responder
Vitor 17 de julho de 2014 at 23:43

Ótimo texto! Por gentileza, onde esta foto foi tirada?

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Jessica Ramalho 5 de outubro de 2017 at 06:22

Oi! Achei o máximo a postagem.
Muito obrigada pelas dicas.

Jessica

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