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Roberto Maia

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Como identificar, ou não, um farsante musical

9 de setembro de 2015 0 comentário

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Nos anos 90, os jornalistas Jimmy Gutterman e Owen O´Donnel escreveram o livro “Os piores discos de rock de todos os tempos”, um verdadeiro exercício de ironia. Na verdade, os discos listados não importavam tanto, mas algo que merece destaque, pelo seu sarcasmo e exatidão atemporal, é a lista de trinta e três regras de como ser original no rock’n’roll e não ter um disco seu inserido em uma lista dos piores de todos os tempos.

Vivemos e um época de muita informação e pouca sabedoria, na qual artistas são formados em “reality shows”, portanto, seguindo essas regras não haverá jurado que não se encante pela banda:

1) Não continue com o nome da banda se um de seus membros fundamentais sair do grupo.

2) Nunca cante uma música sobre Elvis Presley.

3) Nunca grave pela gravadora ARISTA. Ela foi responsável pelos maiores nomes do rock farofa dos anos 80.

4) Rock e coral são detestáveis. Nunca grave um som que tenha um arranjo com um grande coral, a única exceção é “You can´t always get what you want”, dos Rolling Stones, e acabou por aí!

5) Letras de rock não são poesias.

6) A qualidade de um rock é inversamente proporcional ao número de instrumentos utilizados na sua gravação, a menos que você seja Van Morrison!

7) Nunca existirão super grupos (aqueles conjuntos formados por famosos de várias bandas, não adianta, não dá certo nunca!).

8) Rock stars não são atores.

10) Roqueiros brancos que falam de suas raízes negras estão mentindo, assim como quem tenha gravado no Sun Studio depois de 1956. E na maioria das vezes, “revisitar” raízes é um desastre.

11) Não cante uma música falando do seu falecido pai, principalmente se ele foi um grande ídolo.

12) Elvis está morto!

13) Não faça uma escola de arte.

14) Não abrace causas óbvias. Quanto mais controversa for sua bandeira, mais atitude você terá. Você já viu alguém ser contrário a salvar os famintos ou apoiar uma guerra?

15) Qualquer coisa que você pense em fazer para chocar, Jerry Lee Lewis já fez, e certamente de uma forma melhor!

16) Uma lista não é uma canção.

17) Artistas de verdade não podem permitir parentes na banda.

18) Não é admissível ser patrocinado por uma marca ou griffe!

19) Um disco ao vivo deve ser gravado ao vivo (sacou?).

20) Videoclipes são como comerciais, não é cinema de arte.

21) A boa política não se transforma em uma boa letra.

22) Técnica de tocar formidável não quer dizer nada, senão o rock progressivo seria eternamente imbatível.

23) Não existe um cabelo maravilhoso para sempre. A moda passa!

24) Cuidado com quem usa botas de cowboy ou colete.

25) Artistas chamados “cult” acabam sendo tão ou mais previsíveis do que os astros pop!

26) Um heavy metal sempre pode ser tocado com mais velocidade; não há limite!

27) O punk aconteceu (note o tempo do verbo).

28) Se você conseguir gravar mais de três discos, parabéns! Vai merecer uma compilação e possivelmente sobreviver de música.

29) Museu do rock é coisa de xarope. Se você quiser ser eternizado num lugar assim, aprenda a pintar.

30) Admita quando ficar careca, ou barrigudo; nunca tente disfarçar; e pelo amor de Deus: esqueça que já usou roupas justas!

31) O amor não é tudo que precisamos. Veja como soam estúpidas certas letras quando estamos putos da vida.

32) Nunca regrave clássicos da soul music. o resultado é patético!

33) O rock é uma pequena parcela da música mundial. Se você acredita que vai mudar o mundo tocando rock, caia na real!

Culturais

Voltando as origens: Música virou Música

2 de julho de 2015 0 comentário

Numa determinada época de minha vida, como todo bom cultuador dos anos 60, flertei com o orientalismo e acabei mergulhando fundo na filosofia ZEN.

Em uma das primeiras lições comentava-se que: ”… quando você não entende o ZEN, as árvores são árvores e as montanhas são montanhas, quando você começa a entender e estudar o ZEN as árvores são montanhas e montanhas são árvores, quando você compreende o ZEN as árvores novamente são árvores e as montanhas são também, novamente, montanhas… ”.
Transportando este ensinamento para a atual situação da música, que passou por um momento de tanta divagação sobre o seu futuro, a conclusão é bem simples, ou zen: a música voltou a ser música, ou seja, a dúvida deve ser transportada para a questão: o que sobrou do disco no formato que ficou conhecido convencionalmente?
Sou da era do vinil, ou pior, do compacto, quando uma música era uma entidade única e independente e quando vários singles ou compactos se juntavam , resultando em um disco de sucesso. Todos já devem ter visto nos porões de suas casas ou dos seus avós aqueles pesados discos de 78 rpm, que só continham uma música e sua vida útil dependia de quantas vezes fosse executado no toca discos, portanto, voltamos ao passado e a música virou música novamente, sem disco de longa duração, ou um suporte material definido.
O disco agora, em sua maioria, é virtual; a democracia digital permite a cada um criar seu próprio disco, sua própria rádio, sua seleção que pode durar os muitos giga do mais sofisticado player. A indústria do disco se matou com a ganância que ela própria inventou, sobrou o indomável, o resultado final do sonho do artista, sua pequena partícula abstrata de se expressar, uma música que de nada mais depende, ou seja, só depende do ar para existir!

Mas o que isto te a ver com o nosso assunto?

Tudo, pois muitas bandas me procuram perguntado sobre os caminhos do sucesso, ou de um lugar ao sol dentro do mundo musical, mas como tudo, a reposta está dentro do próprio artista.

Estamos começando do zero, um artista poderá ser aquele do single digital, do LP conceitual, do novo CD, ou exótico ao ponto de lançar um Cassete. A chamada “Cauda Longa”, já é uma realidade da Internet; vamos celebrar e alimentar isso. Só não podemos ter medo do agora, nem cultuar a nostalgia, nem esperar que o futuro nos redima!

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O novo disco do Alabama Shakes já nasceu como um dos álbuns mais aguardados de 2015, por isso, expectativas não faltaram para “Sound & Color”. Depois de três anos de sua estreia com “Boys & Girls” (um disco que, apesar de brilhante, não foi unânime em arrancar paixões e elogios, mas que, sem dúvida, era impossível passar despercebido; pois qualquer um com, no mínimo, trezentos discos de bom rock na orelha, viria ali tudo de melhor que poderia estar acontecendo no rock contemporâneo). O primeiro single, Don’t Wanna Fight (Não quero lutar) já foi um alerta metafórico para um grupo que dispensa bobagens; eles vão na veia!

Nascido no meio do furacão, garotos simples, mas rodeados de excelentes sons de raízes e de princípios inalterados, apesar do lixo “internético” atual, deixaram os velhos e os novos de olhos brilhantes e de queixos caídos, citando grooves históricos de uma maneira inédita; nos primeiros 25 segundos da música, que incluiu o fantástico grito solto pela vocalista Brittany Howard que invocava James Brown (nada seria mais óbvio para este novo disco). Se David Ghrol se tornou o mais impressionante arqueólogo e pesquisador da música americana, o Alabama Shakes é renascentista nato; é preciso saber o que significa o “Fame Studio” e o “Muscle Shoals Sound Studio” se quiser entender o som da banda e qual a importância de tudo isto na música contemporânea, mas como sempre digo: “música não vem com bula”; então, deixe para os chatos as definições e caia na gandaia deste som maravilhoso!

Por outro lado, como sou o chato de plantão, farei um pequeno parêntese para contar um pouco desta história maravilhosa.   O “FAME (Florença Alabama Music Enterprises) Studios” está localizado em Muscle Shoals, uma área ao norte do Alabama conhecida como “The Shoals”. Fora do caminho dos principais locais de gravação da indústria da música americana, FAME produziu um grande número de discos de sucesso e foi fundamental para o que veio a ser conhecido como o “Muscle Shoals Sound”. Fundado por Rick Hall, Billy Sherrill e Tom Stafford no final de 1950, o estúdio gravou o primeiro disco de sucesso da área de Muscle Shoals: “You Better Move On”, de Arthur Alexander. Com isso, a fama sobre a sonoridade de Muscle Shoals começou a se espalhar e outros tipos de músicos começaram a vir até o local para gravar. Felton Jarvis, produtor de Nashville, trouxe Tommy Roe e gravou o hit  “Everybody”; Bill Lowery, da Atlanta Music Publisher, também começou a trazer vários nomes e passaram pelo estúdio Aretha Franklin e Wilson Pickett .Os músicos que trabalharam no estúdio ficaram  conhecidos como o “Muscle Shoals Horns” e o “Muscle Shoals Rhythm Section” (The Swampers). Em 1969, logo após o estúdio assinar um contrato com a CBS Records, os “Swampers” deixaram o estúdio para fundar um rival, a “Muscle Shoals Sound Studio”. Esta disputa só melhorou a qualidade de ambos e ajudou para mitificar ainda mais a região. Nomes que vão de Bob Dylan a Paul Simon passaram por lá, só para citar alguns; existem coletâneas e um documentário sobre o local; vale a pesquisa, portanto: fica a dica!

Sound and Color

Alabama Shakes é uma banda inclassificável; formada em Athens, Alabama em 2009. O grupo é composto pela vocalista e guitarrista Brittany Howard, pelo guitarrista Heath Fogg, o baixista Zac Cockrell e o baterista Steve Johnson.  A banda recebeu três indicações para o Grammy Awards 2013, de “Melhor Performance de Rock” para o single “Hold On” e do prêmio de “Melhor Gravação” do seu primeiro álbum, Boys & Girls. Chegou ao desafio do segundo disco e tirou de letra, como fica provado em uma audição atenta.

Agora, vamos sentir Sound And Color, faixa a faixa:

  1. Sound and Color – A faixa-título que abre o álbum, facilita o ouvinte para os caminhos da “soul music” que o grupo irá percorrer; o inusitado vibrafone em contraponto com notáveis sessões sutis de cordas é genial.
  2. Don’t Wanna Fight- O primeiro single com sucesso instantâneo, empatia imediata com os velhos adoradores e veículo para angariar novos fãs. Uma introdução ao funk, soul e groove. Dispensa maiores comentários.
  3. Dunes – Traz guitarras pesadas e retoma a visão que os britânicos tinham do R&B, com sutis toques psicodélicos.
  4. Future People, os silêncios criados pelos arranjos da música soul de Memphis, são outra referência notável por aqui em Future People, o órgão Hammond dispara gotas de emoção.
  5. Gimme All Your Love – se uma banda de “Southern Rock” futurista fosse tocar no “Filmore” teria que soar assim em uma cena de um “cult movie”.
  6. This Feeling – Britany é a melhor cantora da atualidade; isto está consagrado e atestado neste disco; haverá controvérsias, mas a história vai provar a verdade!
  7. Guess Who – a importância da música negra nos anos 60 foi abafada por inúmeros fatores, mas o preconceito foi o pior deles; visionários foram incorporaram à sonoridade de Beatles a Lady Gaga. Hoje o que o mundo ouve é a música negra americana; Guess Who mosta as lições desta cartilha: “Vovó viu a uva”.
  8. The Greatest – o minimalismo que surgiu a partir do resgate feito por Jack White é atestado e reverenciado aqui; economia com grandeza e o domínio da modernidade. A prova definitiva do porque do Alabama ser tão genial!
  9. Shoegaze – Sutilezas do “Swamp Rock” presentes aqui; o espírito roqueiro sobressai e era a hora em que o Creedence entrava na seleção do bailinho!
  10. Miss You – O blues balada que poucos conhecem no terceiro milênio; um lamento digno de um Otis Redding, com direitos as explosões emocionais, que proporcionam um orgasmo catártico; biscoito finíssimo!
  11. Gemini – Para quem acha que o “trip hop” foi algo moderno, um exemplo de que o soul psicodélico foi uma das coisas mais belas criadas na música; hora de saber quem foram The Chambers Brothers, Sly & the Family Stone, Curtis Mayfield ou mesmo Jimi Hendrix.
  12. Over My Head – Um resumo desta viagem; a ousadia de criar um disco conceitual (mesmo sem ser) na era do single; essa é para deixar sem fôlego; os músicos visionários do céu que nos deixaram cedo, devem ter mandado seus arranjos não terminados aqui para os caipiras do Alabama; bem-vindos a uma nova era da música.

http://www.alabamashakes.com/

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Petiscos Musicais

20 de Abril de 2015 0 comentário

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Há tempos venho falando sobre a necessidade de ritualização em relação a musica, não bem a musica em si, mas o seu suporte, ou seja, aquilo onde ela esta gravada! Do acetato ao cd e hoje um mero arquivo digital. Apocalípticos confundiram o fim do suporte “físico” com o fim da musica, mas todas estas discussões são intensas e não dá para si falar nisso em poucas palavras. Na verdade quero dizer que a indústria do disco (em alguns países) vem se esforçando em resgatar estas que chama ritualizações de alguns grandes discos que continham grandes musicas do mundo pop.

Por aqui a gravadora “Music Brokers”  é um exemplo disto, lançando vários petiscos para atrair, primeiro, os antigos adoradores e também  as novas gerações que costumam ler a história com a atenção necessária.

Veja o exemplo do  grupo The Doors que  é uma das bandas mais complexas e indispensáveis da historia do rock; e tornou-se não só uma banda seminal do gênero, mas também uma fonte de inspiração para inúmeros artistas. No entanto, apesar de sempre envolta em uma mítica reforçada pela imagem icônica de seu vocalista Jim Morrison que tinha toneladas de carisma, é, sem duvida, um grupo muito mais falado do que ouvido nas últimas décadas. Apesar de alguns hits musicais mundiais, a obra densa e extensa da banda é pouco conhecida e principalmente entendida.

Por isso mesmo a coletânea THE MANY FACES OF THE DOORS é uma oportunidade única de destrinchar a complexa filosofia do The Doors. Dividida em três CDs, esta compilação traz as chaves para abrir as portas da percepção criadas por esta banda incrível; entramos no mundo secreto da banda, com faixas raras, projetos paralelos de seus membros, remakes e também, algo interessantíssimo e raro neste tipo de coletânea: as raízes musicais do grupo. É um álbum único, que já está sendo elogiado pelos exigentes fãs do grupo em todo o mundo.

A coletânea traz uma arte de capa belíssima e que sintetiza o espírito do disco; uma seleção de músicas que levou alguns anos de trabalho para ser reunida com o objetivo de garantir a coerência da obra e um trabalho de remasterizarão para garantir um som de qualidade.

O primeiro CD contém projetos dos membros da banda: Ray Manzarek (um dos mais complexos tecladistas do rock), Robbie Krieger (o guitarrista virtuoso e de estilo único que compôs o maior hit da banda “Light My Fire”), o baterista John Densmore que mostra seu lado jazzístico e a melhor surpresa que é a presença do filho de Jim Morrison, Cliff, que sem dúvida herdou a voz do pai; é ouvir para crer!

O segundo CD é de covers e vai se tornando um álbum divertido e fácil ouvir, trazendo uma série de surpresas maravilhosas. Como exemplo, a dupla Raveonettes, transforma “The End” em algo curto e radiofônico sem mutilar a densidade original, além das contribuições de mitos do rock como Ian Gillan (vocalista do Deep Purple) e Rick Wakeman fazendo juntos “Light My Fire”, ou Edgar Winter com a belíssima “Crystal Ship”.

No CD 3, as raízes da banda; um álbum de originais de blues e R&B que fizeram a formação dos membros do The Doors; algo belo e temporal para reforçar que o blues é origem de tudo que ouvimos na música pop contemporânea. Os nomes presentes neste terceiro disco dispensam apresentações: Howlin Wolf, Muddy Waters, Robert Johnson, Billie Holiday e John Lee Hooker que ultrapassam a definição de músicos; são pilares que fazem parte de qualquer construção musical de qualidade.

THE MANY FACES OF THE DOORS não é só um disco, é um caminho de aprendizado e surpresa, uma descoberta ou um dicionário para entender a complexa música do grupo The Doors.

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A música virou artesanato; ainda bem!

17 de Março de 2015 0 comentário

Foto Maia

Passei grande parte da minha vida dedicando-me à música em todas as suas formas: da criação à expressão; com uma dose de empirismo e outra grande dose de academicismo, o que me deixa a vontade para não merecer o título de um músico frustrado que divaga ressentimentos sobre música dos outros. De produtor a divulgador, ouvi toda sorte de absurdos e coerências que a minha formação de comunicador pôde apreciar com a distância semiótica necessária. Se esta introdução parece hermética ou fugaz, o sentido é só resumir que sob minha ótica, vivemos no melhor de todos os mundos da realidade musical. Nunca foi tão fácil produzir, gravar e distribuir música; some a isto, ainda, a facilidade de ter um instrumento e um lugar para ensaiar.

Mas o fato dessas facilidades criar a imobilidade é outro problema; sempre afirmei que não há nada mais apavorante em escrever uma redação quando o título é “Tema Livre”. O que acontece hoje é simplesmente isso: ter “meio”, e não ter “mensagem”. Procurado por centenas de bandas, raramente fui surpreendido e mais raramente ainda respondido quando fazia a simples questão: “Qual sua intenção?”.

Impossível começar algo sem atitude ou coragem; na minha adolescência, fiquei na dúvida entre o visual e o sonoro, ou seja, amava fotografia e fui estudar muito sobre o assunto, até que um dia um professor definiu: “Fotografar é ter coragem!”. Isso me fez ver que não há nada mais direto do que você “roubar” a imagem de algo de uma forma tão explícita e no mundo onde praticamente todo mundo tem uma câmera na mão, quantos têm ideias na cabeça? Será que temos a noção do nosso poder atual de produção?

Voltando à música, que acabou sendo meu caminho, ainda que tortuoso, durante os últimos 40 anos, tenho visto surgir selos cada vez mais interessantes e com produções que beiram o artesanal, tudo emocionante e maravilhoso; surgem sites musicais interessantíssimos, surgem lugares para tocar, inúmeras bandas, rádios online, enfim toda sorte de meios, com um único defeito: pouca interação entre si; não digo algo do tipo “brodagem” (abominável palavra), que no Brasil é um sinônimo para definir a subserviência entre os membros do mesmo “clubinho”; discordar é preciso, assim como criticar, portanto, o que falta aqui é a chamada ”cena”. O segredo da Internet foi criar um protocolo que permitiu os mais diversos tipos de computadores falarem entre si, mas aqui os pares não falam entre si, competem migalhas; triste realidade, enquanto os estabelecidos propagam sua estética pobre e vazia.

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Esta busca por uma “cena”, essa valorização do esforço individual para que ele se torne um caminho de um coletivo é o que devemos buscar na cultura brasileira. É preciso incorporar um novo herói que venha repleto com a palavra que falta na maioria do meio musical atual: “atitude”; algo que se tem ou não, que não se compra, não se finge, não está nos adereços, está na alma…

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A arte foi sempre uma ameaça!

20 de Janeiro de 2015 0 comentário

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Em janeiro de 1963, uma versão da música “Louie Louie” feita pelo grupo americano The Kingsmen chegava ao primeiro lugar das paradas e, ao mesmo tempo, virava foco de uma investigação da polícia.

Antes de qualquer teoria conspiratória, é necessário lembrar que a música é um “rhythm and blues” escrito por Richard Berry em 1955. Originalmente foi arranjada em estilo de uma balada jamaicana, ou Calipso, e contava em uma forma de verso-refrão a história em primeira pessoa de um marinheiro jamaicano que voltava à ilha para rever sua amada. Sua primeira edição saiu em um compacto da gravadora Flip com o titulo de “Richard Berry & The Pharaohs”, no ano de 1957. No entanto, a versão que ganhou a fama e as paradas foi a do grupo de Portland, The Kingsmen e, como já dito antes, tornou-se também alvo de uma investigação da polícia sobre o suposto, mas inexistente conteúdo de obscenidade da letra. Devido a palavras quase impossíveis de se entender e um precário esquema de marketing do grupo e sua gravadora, que ventilou o boato, a “confusão” estava armada. Uma vez que o rock já tinha uma má fama vinda dos anos 50 e uma banda de garotos brancos gravando música negra sempre soava suspeito para o “stabilishment” americano da época.

Se hoje a historia da intolerância artística se repete como farsa, naquela época, esta passagem foi tão surreal que poderia parecer mentira, mas não foi!

 

No final de 1965, a carreira e a fama do Kingsmen foi desaparecendo rapidamente, nenhum outro  single conseguiu emplacar nas paradas. Tentaram novamente a fórmula de lançar uma canção “nonsense”, You Got The Gamma Goochee, mas foi um fracasso retumbante. Não se sabe se por falta de assunto ou excesso de neurose, na verdade, quem nunca havia esquecido a banda foi a polícia que chegou a interrogar um dos músicos. Na ocasião ele informou ao Bureau que não era – como tinha sido alegado por políticos e pais indignados – intenção da música da banda ser algo subversivo para com isso corromper a juventude do país.  Finalmente, Depois deste interrogatório cujo conteúdo é considerado uma comédia, a polícia reconheceu sua atitude “curiosa” de passar dois anos tentando decifrar “Louie Louie” e observou no relatório oficial que não existia nenhuma prova de obscenidades e mensagem subliminar na obra.

Por outro lado, “Louie Louie” acabou se tornando uma das músicas mais importantes da história do rock, ganhou prêmios, teve vários livros dedicados a ela e se tornou um ícone do rock de garagem. Houve tantas regravações deste hit, que nos anos 90, uma pesquisa indicou mais de 1200 versões diferentes.

 

A intolerância e a ignorância ainda vão passar muitos apuros tentando entender ou apagar a força de uma canção, de um desenho, de uma poesia ou de qualquer manifestação artística, um desperdício, pois bastaria tentar apreciá-la!

 

 

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Seu apelido é “Capital Mundial da Música ao Vivo”. Devido ao grande número de músicos e bares com esse tipo de entretenimento, recentemente, adotou o slogan “Mantenha Austin Esquisita” (Keep Austin Weird). Isso por culpa do estilo de vida pouco convencional e progressista da maioria dos residentes. Reza a lenda que tudo foi acontecendo devido à mudança de Willie Nelson para lá, e pode ter sido mesmo. Ser o lar do decano da união da música com a cannabis deve sim ter contribuído muito para isso, embora não deixe de ser um paradoxo esse “oásis alternativo” ficar na capital de um estado tão conservador como o Texas!

Outra boa hipótese da mente aberta de Austin é que ela sedia muitas companhias de alta tecnologia, o que dá à cidade outro título: “Colinas do Silício” (trocadilho com o Vale do Silício [Silicon Valley] na Califórnia, e também expoente tecnológico). Considerada a segunda melhor cidade grande para se morar, apesar de não parecer tão grande com o seus 800 mil habitantes (principalmente para um paulistano que está acostumado a dividir o espaço com mais 11 milhões), é, sem duvida, bem agradável passar um dias como turista por lá! E para aqueles que insistem na improfícua discussão de como conciliar bicicletas com a selvageria de uma cidade como São Paulo, bastaria ver o mar de bicicletas estacionado num parque local e ver que realmente a grama do vizinho “ali” é muito mais verde!

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Os “austinites”, denominação para os habitantes locais, são simpáticos e receptivos e se mostram desencanados, pouco apressados e curtem passear pelas ruas planas e de arquitetura impecável. Durante esses passeios a pé, pode se sentir o cheiro da cerveja e da boa música saindo dos mais diversos estilos de bares. Por falar em bares, nada mais tradicional que o “Antone´s”, chamado de o “Lar do Blues” e criado por Clifford Antone, em 1975. Esta “landmark” já recebeu nomes como Muddy Waters, B.B. King, Buddy Guy, John Lee Hooker, Pinetop Perkins, James Cotton entre centenas de outros, em uma época que isso não era nem moda, nem chique. A resistência valeu e hoje mais que um bar, o local é um verdadeiro centro cultural.

Em 2011, tive a sorte de estar por lá durante o “Austin City Limits Music Festival” (http://www.aclfestival.com/), um festival anual de três dias que reúne o que existe de melhor em termos de tendências e da musica atual, alma de nomes consagrados.  A edição deste ano que acontece em outubro terá de Pearl Jam e Eminem a excelentes novidades com St. Vincent e Tune-Yards.

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Porém, depois de tanta informação, uma pequena lojinha pode sintetizar todo o espírito de Austin: “Wild About Music” (http://www.wildaboutmusic.com/). É impossível ficar indiferente ao apelo lúdico da loja. De roupas aos “brinquedos” que todos os amantes de música adoram, mesmo os leigos ficariam tentados a comprar algo que “sem saber bem para que serve”, iriam querer levar para casa. A loja não é o reduto de suvenires locais, mas um microcosmo dos que gostam de música e miniaturas, roupas, objetos de decoração e uma infinidade de boas ideias. Bem, depois de tanta descoberta, nada melhor que se fartar no autointitulado “Pior Churrasco do Texas”. Este “oxymoron” mostra como o marketing pode ser algo divertido, levando filas a um local onde se come com a mão se auto serve de bebidas, mas que se come muito bem e nos motiva a escrever sobre o assunto do outro lado do hemisfério.